São Paulo – A substituição de elementos tradicionais da arquitetura — como janelas amplas, portas generosas, pé-direito alto e coberturas inclinadas — por fachadas envidraçadas, tetos baixos e paredes leves elevou a temperatura dentro das residências brasileiras e ampliou a dependência do ar-condicionado, apontam especialistas em conforto térmico.
Ventilação natural perdeu espaço
Segundo Loyde Abreu, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), a popularização do ar-condicionado na segunda metade do século 20 coincidiu com a adoção de edifícios modernistas, marcados por estruturas seladas e grandes panos de vidro. Essas mudanças reduziram a ventilação cruzada e eliminaram o sombreamento que antes resfriava os ambientes de forma passiva.
A comparação entre construções antigas e atuais ilustra o contraste: imóveis históricos de Lima, no Peru, chegam a registrar até 40 trocas de ar por hora (ACH) com portas e janelas totalmente abertas, enquanto edifícios contemporâneos, com aberturas menores, atingem apenas 17 ACH.
Por que as casas esquentam mais?
De acordo com a arquiteta e urbanista Fernanda Basques Moura Quintão, conselheira federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), três fatores principais concentram o calor nos lares modernos:
- Pé-direito baixo combinado a vidro sem proteção solar – a menor altura de teto diminui o volume de ar interno e pode gerar diferença vertical de temperatura de até 4 °C;
- Grandes áreas envidraçadas sem sombreamento – em climas quentes e úmidos, a temperatura média radiante perto das janelas simples expostas ao sol pode ultrapassar 50 °C;
- Reformas que fecham aberturas originais – a redução das passagens de ar freia a renovação interna e acelera o acúmulo de calor.
Além disso, paredes tradicionais de taipa, adobe ou tijolo maciço — capazes de atrasar a transferência de calor para o interior entre quatro e oito horas — foram trocadas por sistemas leves cuja defasagem varia de 40 a 90 minutos. Coberturas de telha cerâmica, que reduziam a temperatura interna em 3 °C a 5 °C graças ao colchão de ar, cederam lugar a lajes planas sem beirais, potencializando o aquecimento.
Impacto no consumo de energia
Estudos citados por Loyde Abreu indicam que, sem sombreamento e ventilação naturais, cidades como Belo Horizonte (MG) podem ver a demanda total de energia crescer até 77% à medida que extremos de temperatura se intensificam.
Imagem: Gettys
Como refrescar a casa sem grandes reformas
Para reduzir o uso de climatização mecânica, Fernanda Quintão sugere medidas simples:
- Criar ventilação cruzada – posicionar aberturas em faces opostas ou adjacentes facilita a passagem do ar;
- Proteger fachadas – cortinas, persianas, brises, películas refletivas e elementos externos de sombreamento diminuem a carga térmica sobre janelas e paredes;
- Reduzir fontes internas de calor – limitar o uso de aparelhos eletrônicos e lâmpadas que aquecem o ambiente;
- Atenuar ganhos pelo telhado e pelas esquadrias – telhas claras, mantas refletivas e vidros adequados ao clima limitam a transferência de calor;
- Utilizar vegetação – árvores, trepadeiras e jardins verticais aumentam a umidade e criam barreiras naturais contra a radiação solar.
A professora da UPM recomenda ainda manter janelas abertas por pelo menos duas horas diárias, especialmente no início da manhã e à noite. Pesquisas realizadas no Brasil mostram que aberturas amplas, combinadas a portas parcialmente abertas, podem reduzir o desconforto térmico em até 60% ao potencializar a ventilação cruzada.
Para os especialistas, recuperar estratégias já conhecidas da arquitetura tropical — orientação solar correta, sombreamento, escolha de materiais adequados e integração com a vegetação — é o caminho para casas mais frescas e menos dependentes de equipamentos de climatização.
Com informações de Casa e Jardim

