25 de fevereiro de 2026 – Quem decide o que deve ser preservado como patrimônio cultural? A pergunta, lançada pela pesquisadora Camilla Ghisleni em artigo publicado nesta data, reacende a discussão sobre a concentração de poder nas mãos de especialistas – historiadores, museólogos, arquitetos e geógrafos – na hora de escolher os bens que ganham proteção oficial.
De acordo com Ghisleni, as listas de tombamento elaboradas nas últimas décadas nos países latino-americanos evidenciam fortes recortes sociais: predominam construções religiosas ou ligadas às elites, enquanto referências de povos indígenas, comunidades quilombolas, grupos afrodescendentes, trabalhadores e periferias urbanas permanecem sub-representadas.
Patrimônio como processo
A pesquisadora cita a australiana Laurajane Smith, para quem patrimônio não é apenas um conjunto de objetos, mas um “processo” que conecta identidade, lugar e memória. Na mesma linha, o líder indígena brasileiro Ailton Krenak critica a ideia de preservação que separa o material do imaterial e observa que, historicamente, as narrativas oficiais ignoraram a cultura dos povos originários.
Discurso autorizado
Smith denomina de “Discurso Autorizado de Patrimônio” (AHD) o modelo eurocêntrico que, desde a ascensão do nacionalismo europeu, transformou monumentos em símbolos de identidade nacional sob tutela de especialistas. No Brasil, lembra Ghisleni, a institucionalização desse discurso ocorreu durante a ditadura militar, quando órgãos de preservação, alinhados ao modernismo, passaram a selecionar bens de interesse das elites.
Patrimônio ausente
O resultado, segundo o levantamento citado pela autora, é um inventário oficial com pouca diversidade regional e temática. Ficam de fora, por exemplo, sítios de massacres coloniais, territórios indígenas vivos, locais associados à escravidão e narrativas LGBTQIA+. Essa lacuna, destaca Ghisleni, afeta o sentimento de pertencimento de grupos que não se veem retratados nos marcos da memória nacional.
Iniciativas de reparação
Projetos recentes apontam caminhos de inclusão. Entre eles, o “Memórias da Terra”, coordenado pelo arquiteto Paulo Tavares, mapeia aldeias Xavante abandonadas à força no século XX e propõe seu reconhecimento como patrimônio territorial. Já o povo Munduruku ocupou o canteiro da Usina Teles Pires para reivindicar a devolução de urnas funerárias retiradas de seus territórios.
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Na Colômbia, atos públicos de derrubada de estátuas de conquistadores coloniais também funcionam como protesto contra narrativas excludentes e exigem referências que reflitam a pluralidade da população.
Descolonizar critérios
Para Ghisleni, decolonizar o patrimônio envolve rever padrões de avaliação herdados da Europa, ampliar a participação social e incentivar o diálogo entre diferentes atores. A meta é evitar a perpetuação de uma “história única”, conceito popularizado pela escritora Chimamanda Ngozi Adichie, e construir um repertório mais democrático, ainda que sujeito a crítica constante.
Com essas iniciativas, pesquisadores e comunidades buscam substituir a lógica da autoridade única por uma gestão compartilhada capaz de incluir múltiplas vozes na definição do que merece ser lembrado.
Com informações de ArchDaily
